Tertúlia música e saúde

Recordando momentos da tertúlia que nos permitiu construir pontes entre a música e saúde. A música como terapia, como expressão da identidade individual e comunitária, como representação da saúde e da doença: a saúde dos músicos e da sociedade que promove a expressão musical (entre outras formas de expressão artística).

 

TEATRO E SAÚDE 16 DE DEZEMBRO 2019

Antes de começar 2020, aqui ficam mais recordações de 2019, nomeadamente momentos e reflexões da tertúlia Teatro e Saúde:
Teatro e medicina
TEATRO – do Latim theatrum, do Grego theatron, literalmente “lugar para olhar”, de theasthai, “olhar”, mais –tron, sufixo que denota “lugar” (the seeing place).
Ver e ser visto é central aos cuidados médicos. É neste lugar que a observação objetiva e a interpretação subjetiva se cruzam. No teatro e na medicina coexistem múltiplas histórias, experiências, perspetivas: as que vemos e as que perdemos porque não conseguimos ver ou porque escolhemos não ver. O campo de visão, literal e metafórico, é essencial nas duas áreas. No teatro, a audiência tem um papel ativo na tomada de decisão sobre o que ver e quando (em contraste com o cinema, no qual somos levados pela câmara a olhar para determinada personagem ou determinado pormenor cénico). Nos cuidados de saúde, a escolha do que queremos ver depende do que sabemos ver e da relação que construímos ou desconstruímos.

Visão Dupla – no teatro é essencial uma consciência crítica, uma visão dupla que permite distinguir entre a aparência do que vemos e o conteúdo real. Na medicina trata-se de conciliar a distância objetiva e profissional com o envolvimento empático, com a preservação do humano da humanidade presente em cada um.
As linhas de visão no teatro permitem ao espectador ver as escolhas feitas pelo encenador e simultaneamente ter a liberdade de fazer as suas próprias escolhas. O lado controlador coexiste com o lado libertador. No encontro médico doente, há também fatores que controlam como interagimos e outros que nos libertam e nos permitem revelar quem somos, na nossa vulnerabilidade essencial.

“Seeing double” é também “being double”, não no sentido esquizofrénico ou hipócrita do termo “duplo”, mas como corolário de ser uma profissão do Humano, o que implica integrar a dimensão profissional e a pessoal, o compromisso e o distanciamento, a objetividade neutra e a subjetividade comprometida.
A performance teatral permite ensaiar modos de desafiar Outros na hierarquia médica, de resistir e de refutar quando se é confrontado com uma prática não ética. Neste sentido, o teatro pode ser meio para ensaiar comportamentos e atitudes, gestos e linguagens inscritos na rotina dos cuidados de saúde. Por outro lado, o ensaio no teatro é espaço para erros, reflexão e escolhas, o que nos faz recordar que não deveria haver apenas ensaios clínicos, mas sim ensaios para clínicos…

Olhar e ver o Outro – este é o desafio no teatro e na medicina. Para ver alguém é preciso desenvolver imaginação moral, isto é, ser capaz de reconhecer e atender à perspetiva do outro através da atenção, da curiosidade, do compromisso e do cuidado; ter a capacidade de aceitar e adotar modos diferentes de conhecer: objetivo e subjetivo; dedutivo e indutivo; emocional e racional; espiritual e físico; individual e geral, profissional e pessoal….
Todas estas dimensões estão presentes numa só consulta; o discernimento do significado é um ato moral: implica escolhas que modelam questões e respostas. Privilegiar um modo de conhecimento sobre os outros abre espaço à injustiça epistémica (Miranda Fricker, 2007). O teatro contraria esta injustiça epistémica, porque oferece modos de conhecimento mais atentos e com mais nuances, promove o conhecimento relacional, contextual, comunicativo.

Ver e ser visto é central em cuidados de saúde e tem uma natureza dinâmica, incompatível com perspetivas estereotipadas/estandarizadas. Tal como a mesma peça de teatro sofre variações ao longo dos diferentes dias de apresentação ao público, também o encontro médico|doente é modelado por valores, linguagem, evidência, riscos, recursos. A escolha e a mudança são pouco exploradas no modelo biomédico e, no entanto, a cada momento, os profissionais de saúde têm de fazer escolhas sobre o campo de visão que adotam, sendo simultaneamente objeto de mudança em resultado da interação com doentes, familiares, outros profissionais.

Um dos imperativos do teatro e da medicina é saber conviver com o sem sentido (sitting with nonsense). Tolerar e até acolher incoerências e contradições faz a diferença em cuidados de saúde.
O teatro oferece uma lente através da qual podemos navegar por entre questões e problemas do exercício diário da medicina; explora o que significa ser doente, “espectador” e profissional.

 

 

 

Literatura e Saúde

Literatura e Medicina partilham o lugar do Ser e do Fazer, da linguagem que é meio e conteúdo, do gesto que se faz verbo, das palavras tecidas em imagens, de sentidos construídos pelo ritmo das palavras que se dizem, das que se calam e das que se pressentem. Uma e outra só existem na duplicidade do Ser que se observa enquanto é. Ambas implicam atenção, reflexão e representação; criatividade, reflexão e reciprocidade. É na relação entre quem adoece e quem cuida; entre escritor, autor, narrador, personagens, tempo e espaço do texto do mundo e do mundo do texto — é na relação que se encontra o verdadeiro sentido destes dois modos de olhar, conhecer e agir.

Aqui ficam alguns dos momentos da tertúlia Literatura e Saúde, desejando a todos os que nela participaram (oradores e público) um excelente ano de 2020.

Notas Soltas: segundo Ciclo de Tertúlias GERMEN CuidArte/Cinema e Saúde

Notas soltas

Susana Magalhães

O ciclo CuidArte tem por objetivo explorar a relação entre as Artes e os Cuidados de Saúde através de obras realizadas por profissionais de saúde, doentes e cuidadores e outras que, não tendo esta autoria, contribuem para a reflexão sobre o significado do Cuidar, da relação Eu/Outro e do mundo em que vivemos.

Cinema e Saúde foi o tema da primeira tertúlia deste ciclo que teve lugar no dia 21 de Outubro de 2019, na Casa Comum da Reitoria da Universidade do Porto. Na primeira parte da sessão, foi exibida a curta metragem sobre saúde mental “No limiar do Pensamento”, e na segunda um dos episódios da  série de ficção sobre educação para a saúde “2 minutos para mudar de vida”. Na reflexão e debate sobre a curta metragem, contámos com a participação de:

– António Sequeira, realizador e co-argumentista e os supervisores científicos: Carlos Sequeira, doutorado em Ciências da Enfermagem e pós-doutorado em Saúde Mental Positiva, professor na Escola Superior de Enfermagem do Porto e investigador no CINTESIS; José Carlos Carvalho, doutorado em Ciências da Enfermagem, professor na Escola Superior de Enfermagem do Porto e investigador do CINTESIS;

— Filipa Palha, psicóloga; professora na Faculdade de Educação e Psicologia da Católica Porto e Fundadora da Associação ENCONTRAR+SE – Associação para a Promoção da Saúde Mental;

— Sónia Azenha, psiquiatra no Hospital de Braga e doutorada em Bioética pelo Instituto de Bioética da Universidade Católica Portuguesa.

A série “2 minutos para mudar de vida” foi debatida com a colaboração de António Capelo (ator; elemento-pivot da série) e elementos da equipa de produção:

— Nuno Teixeira Marcos, coordenador da unidade de prevenção do cancro do Ipatimup/i3S e responsável pelo projeto “2 minutos para mudar de vida”; Luís CarvalhoPaulo Gomes e Nuno Ribeiro (Unidade de Prevenção de Cancro, Ipatimup/i3S);

— Dagmara Paiva, médica especialista em medicina geral e familiar, membro do GERMEN e da EPIUnit- Instituto de Saúde Pública U.Porto,

A Medicina Narrativa é espaço de interdisciplinaridade e de diálogo, lugar de hospitalidade para as Artes, que são perspetivadas como fonte de conhecimento com impacto no desenvolvimento de capacidades essenciais à prática dos cuidados de saúde e como linguagens cuja plasticidade permite explorar a essência do humano, trazendo para a boca de cena dilemas, interrogações, desejos, vícios e virtudes que habitam a nossa humanidade. O diálogo entre o cinema e os cuidados de saúde é portanto parte dos alicerces da Medicina Narrativa, ou seja, dos cuidados de saúde baseados na relação.

“No Limiar do Pensamento” é uma curta metragem sobre a experiência da doença mental através de olhares cruzados: o olhar do jovem Dinis que adoece e que é diagnosticado com esquizofrenia; a Madalena, mãe do Dinis, enfermeira habituada a cuidar dos outros mas com dificuldades em cuidar do seu próprio filho; Leonor, irmã do Dinis, cujo olhar revela o sentimento de estranheza que a doença mental comporta e que é precisamente o que separa, marginaliza e fragiliza. A desconstrução dos estereótipos enraizados em cada um de nós face ao Outro-diferente é a condição essencial para a integração de quem sofre de doença mental e de quem cuida. “No Limiar do Pensamento”, curta-metragem tecida por olhares que fazem a diferença, convida-nos a olharmos-nos ao espelho, reconhecendo em cada uma das personagens partes de nós ou de outros que nos são próximos. Não tem a pretensão de nos levar até ao fundo das experiências mais trágicas frequentemente associadas à doença mental, mas sim a de nos deixar no limiar destas vivências, abrindo espaço aos percursos que cada um poderá fazer a partir daí. Cada um dos oradores convidados fez o seu percurso, cuja partilha permitiu refletir sobre o sentido do cuidar em saúde mental; a necessidade de integrar todos os intervenientes nesse cuidado, para que as necessidade individuais de cada doente e família sejam de facto atendidas e respondidas. Não há resposta eficaz sem o envolvimento de toda a sociedade.

De acordo com o Relatório Literacia em Saúde em Portugal publicado em 2016 pela Fundação Calouste Gulbenkian, 49% da população portuguesa apresentava níveis de literacia em saúde inadequados ou problemáticos, abaixo do panorama europeu. A série “2 minutos para mudar de vida” foi pensada e produzida tendo em conta a necessidade de alterarmos este cenário no nosso país. Sabendo que as campanhas de promoção de literacia em saúde correm o risco de disseminar informação sem o correspondente aumento do conhecimento e efetiva mudança de atitudes/comportamentos, a equipa que concebeu e produziu esta série procurou fazer a diferença através do humor e da narrativa cinematográfica. A comunicação é essencial na partilha de informação e na construção de conhecimento para a população em geral, bem como na relação entre o profissional de saúde e o doente/família. Ao destacar formas diferentes de comunicar, esta série permite sublinhar o lugar da criatividade e da imaginação na promoção da literacia em saúde e na construção de uma relação verdadeiramente dialogante entre quem cuida e quem sofre.

Se “uma imagem vale mil palavras”, então poderíamos afirmar que nesta tertúlia fomos desafiados por várias imagens que valem uma palavra: Cuidar.

 

 

 

Memory Book Project

“I Die, But My Memory Lives On”: The World AIDS Crisis and the Memory Book Project, by Henning Mankell

(Translated by Laurie Thompson, Foreword by Archbishop Desmond Tutu, Afterword by Samuel Worthington of Plan USA)

Henning Mankel fala sobre a descoberta dos livros de memórias escritos/tecidos/desenhados por pais africanos (sobretudo mães) que, confrontados com sua morte em resultado da SIDA, deixam um legado de memórias aos seus filhos.

https://www.youtube.com/watch?v=vQKH_uGUhMU

Registo clínico narrativo integrado no registo clínico digital

O Movimento OpenNotes é a concretização do valor do parallel chart (registo clínico paralelo) originalmente criado por Rita Charon e que tem sido instrumento de investigação qualitativa na área dos Cuidados de Saúde por equipas especializadas como o ISTUD (https://www.medicinanarrativa.eu/narrative-medicine-istud), sob a supervisão de Maria Giulia Marini.
Aqui em Portugal temos um longo caminho a fazer e o GERMEN irá certamente dar os seus contributos para que o registo clínico paralelo seja uma prática cada vez mais comum.

https://www.opennotes.org/