Notas Soltas: segundo Ciclo de Tertúlias GERMEN CuidArte/Cinema e Saúde

Notas soltas

Susana Magalhães

O ciclo CuidArte tem por objetivo explorar a relação entre as Artes e os Cuidados de Saúde através de obras realizadas por profissionais de saúde, doentes e cuidadores e outras que, não tendo esta autoria, contribuem para a reflexão sobre o significado do Cuidar, da relação Eu/Outro e do mundo em que vivemos.

Cinema e Saúde foi o tema da primeira tertúlia deste ciclo que teve lugar no dia 21 de Outubro de 2019, na Casa Comum da Reitoria da Universidade do Porto. Na primeira parte da sessão, foi exibida a curta metragem sobre saúde mental “No limiar do Pensamento”, e na segunda um dos episódios da  série de ficção sobre educação para a saúde “2 minutos para mudar de vida”. Na reflexão e debate sobre a curta metragem, contámos com a participação de:

– António Sequeira, realizador e co-argumentista e os supervisores científicos: Carlos Sequeira, doutorado em Ciências da Enfermagem e pós-doutorado em Saúde Mental Positiva, professor na Escola Superior de Enfermagem do Porto e investigador no CINTESIS; José Carlos Carvalho, doutorado em Ciências da Enfermagem, professor na Escola Superior de Enfermagem do Porto e investigador do CINTESIS;

— Filipa Palha, psicóloga; professora na Faculdade de Educação e Psicologia da Católica Porto e Fundadora da Associação ENCONTRAR+SE – Associação para a Promoção da Saúde Mental;

— Sónia Azenha, psiquiatra no Hospital de Braga e doutorada em Bioética pelo Instituto de Bioética da Universidade Católica Portuguesa.

A série “2 minutos para mudar de vida” foi debatida com a colaboração de António Capelo (ator; elemento-pivot da série) e elementos da equipa de produção:

— Nuno Teixeira Marcos, coordenador da unidade de prevenção do cancro do Ipatimup/i3S e responsável pelo projeto “2 minutos para mudar de vida”; Luís CarvalhoPaulo Gomes e Nuno Ribeiro (Unidade de Prevenção de Cancro, Ipatimup/i3S);

— Dagmara Paiva, médica especialista em medicina geral e familiar, membro do GERMEN e da EPIUnit- Instituto de Saúde Pública U.Porto,

A Medicina Narrativa é espaço de interdisciplinaridade e de diálogo, lugar de hospitalidade para as Artes, que são perspetivadas como fonte de conhecimento com impacto no desenvolvimento de capacidades essenciais à prática dos cuidados de saúde e como linguagens cuja plasticidade permite explorar a essência do humano, trazendo para a boca de cena dilemas, interrogações, desejos, vícios e virtudes que habitam a nossa humanidade. O diálogo entre o cinema e os cuidados de saúde é portanto parte dos alicerces da Medicina Narrativa, ou seja, dos cuidados de saúde baseados na relação.

“No Limiar do Pensamento” é uma curta metragem sobre a experiência da doença mental através de olhares cruzados: o olhar do jovem Dinis que adoece e que é diagnosticado com esquizofrenia; a Madalena, mãe do Dinis, enfermeira habituada a cuidar dos outros mas com dificuldades em cuidar do seu próprio filho; Leonor, irmã do Dinis, cujo olhar revela o sentimento de estranheza que a doença mental comporta e que é precisamente o que separa, marginaliza e fragiliza. A desconstrução dos estereótipos enraizados em cada um de nós face ao Outro-diferente é a condição essencial para a integração de quem sofre de doença mental e de quem cuida. “No Limiar do Pensamento”, curta-metragem tecida por olhares que fazem a diferença, convida-nos a olharmos-nos ao espelho, reconhecendo em cada uma das personagens partes de nós ou de outros que nos são próximos. Não tem a pretensão de nos levar até ao fundo das experiências mais trágicas frequentemente associadas à doença mental, mas sim a de nos deixar no limiar destas vivências, abrindo espaço aos percursos que cada um poderá fazer a partir daí. Cada um dos oradores convidados fez o seu percurso, cuja partilha permitiu refletir sobre o sentido do cuidar em saúde mental; a necessidade de integrar todos os intervenientes nesse cuidado, para que as necessidade individuais de cada doente e família sejam de facto atendidas e respondidas. Não há resposta eficaz sem o envolvimento de toda a sociedade.

De acordo com o Relatório Literacia em Saúde em Portugal publicado em 2016 pela Fundação Calouste Gulbenkian, 49% da população portuguesa apresentava níveis de literacia em saúde inadequados ou problemáticos, abaixo do panorama europeu. A série “2 minutos para mudar de vida” foi pensada e produzida tendo em conta a necessidade de alterarmos este cenário no nosso país. Sabendo que as campanhas de promoção de literacia em saúde correm o risco de disseminar informação sem o correspondente aumento do conhecimento e efetiva mudança de atitudes/comportamentos, a equipa que concebeu e produziu esta série procurou fazer a diferença através do humor e da narrativa cinematográfica. A comunicação é essencial na partilha de informação e na construção de conhecimento para a população em geral, bem como na relação entre o profissional de saúde e o doente/família. Ao destacar formas diferentes de comunicar, esta série permite sublinhar o lugar da criatividade e da imaginação na promoção da literacia em saúde e na construção de uma relação verdadeiramente dialogante entre quem cuida e quem sofre.

Se “uma imagem vale mil palavras”, então poderíamos afirmar que nesta tertúlia fomos desafiados por várias imagens que valem uma palavra: Cuidar.

 

 

 

Memory Book Project

“I Die, But My Memory Lives On”: The World AIDS Crisis and the Memory Book Project, by Henning Mankell

(Translated by Laurie Thompson, Foreword by Archbishop Desmond Tutu, Afterword by Samuel Worthington of Plan USA)

Henning Mankel fala sobre a descoberta dos livros de memórias escritos/tecidos/desenhados por pais africanos (sobretudo mães) que, confrontados com sua morte em resultado da SIDA, deixam um legado de memórias aos seus filhos.

https://www.youtube.com/watch?v=vQKH_uGUhMU

Registo clínico narrativo integrado no registo clínico digital

O Movimento OpenNotes é a concretização do valor do parallel chart (registo clínico paralelo) originalmente criado por Rita Charon e que tem sido instrumento de investigação qualitativa na área dos Cuidados de Saúde por equipas especializadas como o ISTUD (https://www.medicinanarrativa.eu/narrative-medicine-istud), sob a supervisão de Maria Giulia Marini.
Aqui em Portugal temos um longo caminho a fazer e o GERMEN irá certamente dar os seus contributos para que o registo clínico paralelo seja uma prática cada vez mais comum.

https://www.opennotes.org/

Notas soltas sobre a Tertúlia Cuidar de Quem Cuida

Notas soltas sobre a tertúlia Cuidar de Quem Cuida

Susana Teixeira Magalhães

 

Quem cuida habita um tempo e um espaço

que excedem o  kronos e o mapa da vida apressada

em que nos deixamos submergir

 

Na tertúlia Cuidar de quem Cuida, que teve lugar no dia 27 de Maio de 2019, houve espaço e tempo para pensar sobre o sentido do Cuidar em contexto informal e formal, através da partilha de experiências e de conhecimento entre cuidadores, profissionais de saúde, investigadores académicos, representantes de associações e membros de projetos que têm procurado melhorar a qualidade de vida dos que cuidam.

Cuidar de quem cuida é promover a saúde da população, sabendo que as estimativas apontam para um aumento crescente do número de cuidadores informais, com todas as dificuldades subjacentes: empobrecimento, desgaste físico e emocional, stress associado à falta de conhecimento que lhes permita dar uma resposta mais sólida ao sofrimento de quem cuidam…São vidas suspensas, com dificuldades em rasgar horizontes para o futuro.

Do diálogo construído ao longo desta sessão, aqui ficam algumas das ideias mais importantes:

  • Para cuidar é preciso cuidar-se;
  • Quem cuida aprende e pode ser fonte de conhecimento essencial para quem quer  cuidar melhor de si e dos outros – criar uma rede de partilha de experiências seria útil e urgente. As salas de espera, onde o tempo se dilata frequentemente sem qualidade, poderiam ser um lugar de hospitalidade para os cuidadores, servindo de veículo de divulgação de informação e de ponto de encontro;
  • Cuidar de quem cuida passa por conhecer os projetos locais que estão a ser implementados em várias zonas do país e promover a sua consolidação e preservação no tempo;
  • Cuidar de quem cuida exige que os diferentes serviços públicos se articulem para agilizar os apoios necessários;

Cuidar de quem cuida é ponto de exclamação e de interrogação: o inesperado que revoluciona a vida transforma-se em inquietação e dúvida. A resposta não pode ser um ponto final, mas sim dois pontos que abram espaço a alternativas humanizadoras das nossas comunidades.

 

Agradecemos o contributo de todos os que estiveram presentes e que enriqueceram a reflexão com a sua experiência e sabedoria:

Eliana Cruz, Psicóloga, membro do Centro de Apoio Psicológico e Intervenção em Crise (CAPIC) do Instituto Nacional de Emergência Médica.

Fátima Sousa, representante da Associação Nacional de Cuidadores Informais

Leonel Castro, fotojornalista, vencedor do prémio Estação Imagem 2019 Coimbra, com um trabalho sobre o papel social dos cuidadores informais, intitulado “Almas”.

Sara Alves, gerontóloga, membro da equipa do Centro de Atendimento Cinquenta Mais (ICBAS.UP), estando principalmente envolvida na consulta ao cuidador.

Sérgio Pimenta e Rita Costa, Enfermeiros, membros da equipa do projeto “Viver com Demência”, desenvolvido nas Unidades de Cuidados na Comunidade (UCCs) do Aces Matosinhos para o acompanhamento do utente e família na sua comunidade

Partidos Políticos:

Álvaro Castello-Branco, pelo CDS, Diana Ferreira, pelo PCP, Mariana Macedo pelo PSD, Moisés Ferreira, pelo BE e Patrícia Faro, pelo PS.

Público